Ulysses de James Joyce



O meu primeiro contacto com Ulysses de James Joyce foi aos 16 anos, confesso que odiei o livro, não pelo livro, mas por não perceber a obra. Só meses depois após falar com familiares Ingleses vim a saber que James Joyce brincava com as palavras de forma a que muitas vezes certos trechos tivessem duplo significado. Desde os 18 anos li o livro mais 3 vezes, e de todas as vezes encontrei algo novo. Este é sem dúvida o meu livro favorito em língua inglesa.
Sempre afirmei como seria difícil de traduzir, quer seja para Português ou para qualquer outra língua, visto que de maneira a fazer sentido o tradutor teria de ter conhecimentos muito bons não só da língua Inglesa, mas também da cultura irlandesa. Eu sabia que existia uma tradução em Português por uma editora Portuguesa (Difel, Lisboa). O seu tradutor, foi um brasileiro chamado Antonio Houaiss.

Há quase dois anos que essa tradução se encontra na minha pirâmide de livros por ler, até hoje. Agora que o li, esta leitura ajudou-me a compreender o ódio de muita gente pelo livro. A tradução é vergonhosa. O tradutor demonstra uma falta de cultura tremenda em relação à cultura Anglo-Irlandesa. Optou por fazer uma tradução textual, deixando grandes trechos sem fazer qualquer sentido, omitiu frases completas, não sei se por não as saber traduzir ou interpretar, e entrou por devaneios pessoais que nada têm a ver com o texto original. Alternou passagens de discurso directo, más interpretações, imprecisões, omissões, mudanças de registo, adaptou o que é inadaptável, pois lá por não existir tradução correspondente em Português, o tradutor deveria ter recorrido a notas explicativas e não a devaneios pessoais. Optou várias vezes por colocar palavras em latim em itálico sem que assim o estejam em Inglês.
No final da leitura, eu perguntei-me: "Mas o que é que eu estive a ler?"

Este livro (o original em Inglês) é tido por alguns como o melhor livro do séc XX, mas por todos os críticos como um dos 10 melhores de sempre. Este facto faz também com que seja um dos 5 livros que mais pessoas dizem ter lido, sem nunca o lerem.

Agora eu desaconselho vivamente a leitura desta obra em Português ou qualquer outra tradução. Apesar de não achar que existam livros intraduzíveis, este é intraduzível num único volume, teria de ter as 900 páginas da sua versão comercial compacta traduzidas e fazer-se acompanhar de um anexo de duzentas páginas de anotações.


Deixo-vos com alguns exemplos que poderiam ter piada se não fosse uma vergonha chamarem isto de tradução:

"what's in a name?" que é uma referência a Shakespeare que significa "O que nos diz um nome?" foi traduzido para "que é que há dentro de um nome?".

"Oyester eyes" que se traduz para "Olhos de ostra" foi traduzido para "Olhos de peixe".

"ancient mariner" que poderá ser traduzido de várias formas mas que quer dizer "velho marinheiro", foi traduzido para "ex-marinheiro".

"Ned Lamben is taking the day off, I see", que se traduz para "Vejo que Ned Lamben não foi hoje trabalhar (ou tirou o dia de folga)", foi traduzido para "Ned Lamben está em seu dia, vejo".

"Thou art in peril", não é Inglês corrente e significa "Estais a correr perigo" foi traduzido para "tu és em perigo".

"Begad" que é uma interjeição que poderá ser traduzida para "Meus Deus!" ou "Santos Deus", foi traduzido para "De acordo".

"Usual blarney" que significa "a treta do costume" foi traduzido para "a igrejinha de sempre".

A frase "to lust after you" que significa um simples "desejando-te" foi traduzido para uma fantástica loucura, "ele olhou para você com um tesão por você".

"All off for a drink", que significa "saíram todos para beber um copo", foi traduzido para "todos já rumo do trago".

"Plumps for" que pode significar "Engraçar com", "escolher", "vai com a cara de" foi traduzido para "dá dentro".

"Pineaple rock" que não é mais nem menos que um rebuçado de ananás foi traduzido literalmente para "rochedo com abacaxi".

Num jogo de palavras de Joyce, ele escreve: "Wy don't you old back the owling mob", aqui ele simplesmente não colocou os H's por forma a criar novas palavras mas o valor fonético é o mesmo, ele poderia ter escrito "Why don't you hold back the howling mob" que significa "porque não seguras a multidão afligida", que foi traduzido para algo que nem sob o efeito de drogas se explica: "Pruque ocê não sofrea essa multidão praguejante", uma demonstração de que não percebeu nada do que leu.

"Will you tell him he can my arse", que é uma forma deselegante de se dizer que alguém não pode fazer algo, como em Português se diz "podes, o caralho", mas no livro foi traduzido para "quer perguntar para ele se quer lamber o meu cu?".

"brought downstairs" referindo-se ao transporte de um caixão do primeiro piso para o rés-do-chão, foi traduzido para "baixaram ele para baixo".

"Bad breath he has, poor chap", que significa "Ele tem mau hálito, pobre coitado" foi traduzido para um estranho "Mau hálito ele tem, pobre gajo", que me parece uma daquelas traduções automáticas online.

"All prick and no pence" que se pode traduzir para "só pixa e sem tostão" uma frase ao nível das frases portuguesas como "tesão de mijo", "teso como um carapau", etc, foi traduzido para "são picões sem pénis".

"screaming" que significa "gritando" foi traduzindo para "gargalhando".

"No-one here" significa "não está cá ninguém" foi traduzido para "nenhum aqui".

"Hussy" que significa "Meretriz" foi traduzido para "levada da breca".

"Ditto" que significa "Idem" foi traduzido para "Dito".

"What ho, parson" que se pode traduzir para "boas, senhor cura" ou "viva, senhor cura" ficou como "Olá, pastor".

"On fire, on fire" que significa "a arder, a arder" foi traduzido literalmente para "no fogo, no fogo".

"Crickey" que significa "Irra", "chiça" foi traduzido para "sua porca".

Na referência sexual "he must have come 3 or 4 times" = "ele deve-se ter vindo 3 ou 4 vezes", foi traduzido para "ele deve ter ido 3 ou 4 vezes".

"Sinbad the sailor and Tinbad the tailor and Jinband the jailer", que não é mais do que um mero exercício de aliteração onde Sinbad, Tinbad e Jinbad acabam por produzir palavras verdadeiras que são profissões e rimam, na tradução este senhor optou por: "Whinbad o Whareiro e Hinbad o Hereiro", algo que ainda estou a tentar perceber se são palavras em algum ponto do Brasil. Português não é com toda a certeza.

Houaiss fez também por várias vezes algo que é inaceitável a um tradutor, ou seja omitir parte da obra. Ele omitiu imensas frases de onde destaco:
"Are you a strict t.t?", t.t. é um diminutivo de teetotaller que significa abstémio, Houaiss omitiu por não saber, mas se não sabe pergunta e se não pergunta não traduz uma obra deste calibre e vai traduzir livros do Rato Mickey.

"Unbloused her neck", que significa "desblusou o pescoço" numa referência a desabotoar aquelas camisas antigas de mulher, típicas na Irlanda que cobriam o pescoço. Houaiss achou que ela "desnudou o colo".

"leave it to my hands" que significa "deixe isso nas minhas mãos" numa referência a "eu trato disso", Houaiss achou bonito traduzir para, "e nem falar das minhas mãos".

"Plumben" que significa "canalizador" foi traduzido para "bombeiro-hidráulico".

A palavra "Beau" que significa "namorado" ficou na tradução como "beau", pois o tradutor não sabia como a traduzir.


São imensos os exemplos de erros, pois a tradução foi um erro, a edição desta merda foi um erro e é por haver merdas assim que as pessoas dizem não gostar de certos autores. Vejam Paulo Coelho por exemplo, em Inglês os livros dele são menos maus.
Um tradutor não deve omitir e Houaiss omitiu. Tal como um tradutor não deve mudar o que o autor escreve só porque tem visões politicas ou religiosas diferentes e Houaiss fê-lo em vez de traduzir o que James Joyce escreveu, que foi: "O senhor Digman deve estar no purgatório porque se confessou", Houaiss deixou que as suas crenças religiosas afectassem o seu mau trabalho tornando-o pior ainda, traduzindo para "O senhor Digman deve estar no purgatório porque não se confessou".

Tenho na minha biblioteca uma primeira edição deste livro e tenho para "destruir" lendo e anotando uma versão de bolso (apesar das 932 páginas) da Penguin que custou 8,58€ e fico a pensar em quem ganha imenso dinheiro por traduções de merda como estas, vendidas entre os 12,50€ e os 14€, e levando o leitor a ganhar adversão ao autor e não ao tradutor. Houaiss já morreu e por isso não estraga mais obra nenhuma, mas esta tradução coloca em causa toda a sua carreira de tradutor e leva-me a questionar a aclamação da "genialidade" dele, quer no Brasil, quer em Portugal

41 Comentários:

  Cris (Mahinder Kaur)

segunda-feira, setembro 14, 2009 9:29:00 da tarde

lol,
algumas coisas até eu sabia traduzir e a minha cultura geral não é nada de especial. Enfim, há livros que só vale mesmo a pena ler na língua original.

P.S. esse dinheiro gasto no livro, já o estava a chorar...

  Cris (Mahinder Kaur)

segunda-feira, setembro 14, 2009 9:46:00 da tarde

Será que é para considerar o dicionário Houaiss credível?

  Jane Doe

segunda-feira, setembro 14, 2009 10:04:00 da tarde

Nunca li. E ler em inglês com essas expressões, para já, não. Realmente ler em inglês foi uma das coisas às quais me desabituei, mas terei de reverter o processo. Só não sei quando.

Algumas das palavras/expressões eu não conhecia, mas outras são demasiado flagrantes, como o screaming, o on fire, etc etc.

Ainda bem que avisas. Assim não corro o risco de o ir ler, tendo em conta que já falaste dele aqui no blog, e eu fiquei assim a pensar, hei-de ler.

:)

  ceptic

segunda-feira, setembro 14, 2009 10:06:00 da tarde

LOL
Não sabia inglês, não devia ter traduzido a obra, não deveria ter sido publicado, não deveria estar á venda, já deveria ter sido retirado do mercado.

aliás nem sabe português..."baixando para baixo" LOL

assassinou a obra e a língua...

  Nuno, apenas Nuno.

segunda-feira, setembro 14, 2009 10:24:00 da tarde

Cheguei a meio das traduções. Não me deu vontade de rir mas também não me deu vontade de ler mais.
Eu nem o culpo pela cultura que tu dizes que lhe falta. É mesmo por se achar tradutor, visto que, até eu que não sou um daqueles entendedores por aí além compreendi a maior parte sem ler a tua tradução... E a dele é vergonhosa mesmo. Assim também eu consigo ser rico fodace!

  deKruella

segunda-feira, setembro 14, 2009 10:41:00 da tarde

Ufa...agora fiquei mais descansada...

É que este, para minha vergonha (até agora), foi o único livro em que só consegui ler 50 páginas (o traduzido). Achei-o simplesmente horroroso e já o vi no tal top que te referiste fiquei a pensar que raio se passava com esta gente...afinal...

Tenho acesso a algumas coisas traduzidas por brasileiros e de facto não sei como é que eles aprendem inglês...acho que eles têm uma interpretação muito própria e as palavras /expressões para eles não têm o mesmo significado que para outros...
...enfim!

  ecila

terça-feira, setembro 15, 2009 12:32:00 da manhã

Esse livro está na minha pilha de livros para ler, em inglês claro :) Mas tambem lá tenho o "A portait of the artist as a young man", qual é que gostaste mais?

Tens toda a razao, já li traducoes para inglês do Fernando Pessoa que me fizeram tremer. Alguns tradutores poem-se a inventar. Podiam ao menos consultar colegas que falam a lingua nativa, sempre se evitavam traducoes que depois nao têm nada a ver com o que o autor escreveu. E tambem já encontrei o mesmo problema em traducoes para português do Lewis Carroll. Todos estes autores usam truques de linguagem que sem a consulta de alguem nativo fica impossivel (e pretencioso) de traduzir.

  Teté

terça-feira, setembro 15, 2009 1:32:00 da manhã

Não consegui ler esse livro, porque não estava a entender rigorosamente nada. E sim, em português, não sei se tradução desse "tradutor".

Chateia-me ler livros em inglês porque demoro o triplo to tempo... ;)

Mas pelo menos já fiquei a saber porque tanta gente acha este livro genial e eu não o consegui ler! :D

  Luís Barata

terça-feira, setembro 15, 2009 2:16:00 da manhã

No mundo das pessoas mais cultas os brasileiros têm fama de ser muito maus tradutores.

  Feitiozinho

terça-feira, setembro 15, 2009 12:47:00 da tarde

Pois bem, na minha querida chafarica mandei uns textos para tradução para uma empresa externa e confesso que o grau de qualidade da tradução era exactamente o mesmo... por acaso quem a fez também é brasileiro...

Como entendo o teu desespero :|

  Anónimo

terça-feira, setembro 15, 2009 5:46:00 da tarde

Muito mau mesmo! Mas tu não ficas atrás do Houaiss em conhecimento de Português.

>>> \"Unbloused her neck\", que significa \"desblusou o pescoço\" numa referência a desabotoar aquelas camisas antigas de mulher, típicas na Irlanda que cobriam o pescoço. Houaiss achou que ela \"desnudou o colo\". <<<

E achou bem.
Unbloused = Desnudou (\"desblusou\" não existe em português)

Neck = pescoço = colo

Colo significa pescoço, é a parte que une o tronco e a cabeça.


>>> \"Plumben\" que significa \"canalizador\" foi traduzido para \"bombeiro-hidráulico\". <<<

Plumben - presumo que quisesses escrever PLUMBER - significa canalizador que em português do Brasil é \"bombeiro-hidráulico.\"

Etc.

Para fazer uma boa tradução é preciso não só compreender o idioma de origem, mas também a língua para a qual se traduz.

Zé Trolha

  Anónimo

terça-feira, setembro 15, 2009 10:14:00 da tarde

Tens uma primeira edição do Ulysses? Isso é raríssimo. Qual é a 1ª edição que tens?

  ceptic

terça-feira, setembro 15, 2009 10:19:00 da tarde

entao quando me sento ao colo de alguém, tenho me sentado no sitio errado!? LOL

vai ser giro na proxima vez!

não dou mais colo a ninguem antes que fique com um torcicolo! tenho dito!:P

seja como for ainda não ha tradução nenhuma para português mesmo que por brasileiros que não esteja repleta de erros ou más interpretações, e acho que o erro acenta é na interpretação de cada um, que tentou traduzir.

é so ver links como este, também brasileiro
http://www.germinaliteratura.com.br/literatura_mar2007_luizgalvarenga1.htm

  Bruno Fehr

terça-feira, setembro 15, 2009 11:33:00 da tarde

Cris (Mahinder Kaur):

"há livros que só vale mesmo a pena ler na língua original."

Sem dúvida.

"P.S. esse dinheiro gasto no livro, já o estava a chorar..."

Já comprei tanta tristeza que já não ligo.

  Bruno Fehr

terça-feira, setembro 15, 2009 11:33:00 da tarde

Cris (Mahinder Kaur):

"Será que é para considerar o dicionário Houaiss credível?"

É uma excelente questão, eu nunca tive um deles na mão, mas dá que pensar.

  Bruno Fehr

terça-feira, setembro 15, 2009 11:34:00 da tarde

Jane Doe:

"Nunca li. E ler em inglês com essas expressões, para já, não. Realmente ler em inglês foi uma das coisas às quais me desabituei, mas terei de reverter o processo."

Para se ler numa língua estrangeira, deve-se começar por livros mais fáceis, este será difícil de compreender.

  Bruno Fehr

terça-feira, setembro 15, 2009 11:34:00 da tarde

ceptic:

"Não sabia inglês, não devia ter traduzido a obra"

O homem fazia dicionários de Português/Inglês do mais vendidos no Brasil.

  Bruno Fehr

terça-feira, setembro 15, 2009 11:34:00 da tarde

Nuno, apenas Nuno.:

"Eu nem o culpo pela cultura que tu dizes que lhe falta. É mesmo por se achar tradutor"

Ele não tem desculpa, pois existem dezenas de livros de análise a este livro que o explicam ao mais pequeno detalhe.

  Bruno Fehr

terça-feira, setembro 15, 2009 11:34:00 da tarde

deKruella:

"É que este, para minha vergonha (até agora), foi o único livro em que só consegui ler 50 páginas (o traduzido)."

Não digo que o original agrade, como disse à primeira vez não gostei porque não percebi.

  Bruno Fehr

terça-feira, setembro 15, 2009 11:35:00 da tarde

ecila:

"Esse livro está na minha pilha de livros para ler, em inglês claro :) Mas tambem lá tenho o "A portait of the artist as a young man", qual é que gostaste mais?"

"A Portrait of the Artist as a Young Man" é uma espécie de biografia ficcionada, é de leitura mais fácil e mais fácil de gostar. Ulysses é uma critica social onde se tem de perceber a sociedade da altura.

"Podiam ao menos consultar colegas que falam a lingua nativa"

Neste caso, só precisava de ler um dos muitos livros de análise a este livro.

traduzir.

  Bruno Fehr

terça-feira, setembro 15, 2009 11:35:00 da tarde

Teté:

"Não consegui ler esse livro, porque não estava a entender rigorosamente nada. E sim, em português, não sei se tradução desse "tradutor"."

Só existem duas traduções em Português, a deste senhor e de uma senhora que não me recordo o nome. As duas são más.

  Bruno Fehr

terça-feira, setembro 15, 2009 11:35:00 da tarde

Luís Barata:

"No mundo das pessoas mais cultas os brasileiros têm fama de ser muito maus tradutores."

Já reparei nisso. Actualmente já sabem mais Inglês, pois esta língua era propositadamente mal ensinada para evitar ondas de emigração para os EUA.

  Bruno Fehr

terça-feira, setembro 15, 2009 11:35:00 da tarde

Feitiozinho:

"Pois bem, na minha querida chafarica mandei uns textos para tradução para uma empresa externa e confesso que o grau de qualidade da tradução era exactamente o mesmo... por acaso quem a fez também é brasileiro..."

É prática corrente (aqui) pedirem amostras de tradução, ou seja, parte do trabalho é grátis para se conseguir o contrato.

  Bruno Fehr

terça-feira, setembro 15, 2009 11:35:00 da tarde

Anónimo Zé Trolha:

Muito mau mesmo! Mas tu não ficas atrás do Houaiss em conhecimento de Português.

"E achou bem.
Unbloused = Desnudou (\"desblusou\" não existe em português)"

E por isso está em itálico. E acha que neck é colo? Poupe-me.
Porque será que os anónimos são tão fantásticos que fazem tudo melhor?

"Plumben - presumo que quisesses escrever PLUMBER - significa canalizador que em português do Brasil é \"bombeiro-hidráulico.\""

Correcto "plumber", o que interessa que seja bombeiro-hidráulico? Ele fez uma tradução para Portugal, para um editora Portuguesa e o livros deverá estar em Português de Portugal, pois era para o mercado interno!

"Etc."

Etc? Isso quer dizer que há mais erros? Ou é pare deixar no ar que há mas não verdade não há?

"Para fazer uma boa tradução é preciso não só compreender o idioma de origem, mas também a língua para a qual se traduz."

Obrigado senhor óbvio!

  Bruno Fehr

terça-feira, setembro 15, 2009 11:44:00 da tarde

Anónimo disse...

"Tens uma primeira edição do Ulysses? Isso é raríssimo."

Raríssimo é exagero pois a primeira edição é de 1000 cópias.
Tenho diversas primeiras edições.

"Qual é a 1ª edição que tens?"

Qual? Primeira edição só há uma:
Paris - Shakespeare and Co., 1922. Capa azul-esverdeada numa caixa em pele/papel.

  Anónimo

quarta-feira, setembro 16, 2009 12:16:00 da manhã

\"E acha que neck é colo? Poupe-me.\"

Olá, sabes o que é que quer dizer \"colo\"? E sabes o que quer dizer \"neck\"?

\"Pescoço\" ou \"colo\" têm o mesmo significado. Já terás ouvido falar nas palavras \"colar\" ou \"colarinho\" ou \"coleira\" (etc.), de origem \"colo\", do latim \"collum\", que quer dizer pescoço.

A tradução que ele fez foi para publicação no Brasil, e se manteve as especifidades lexicais do português que se fala do outro lado do oceano foi por opção da editora, como poderás constatar em nota introdutória ao romance.

No caso de \"colo\" a questão não se coloca, é tão correcto com aquele sentido, seja aqui ou do outro lado do oceano.

Actualmente existem quatro traduções para português. Três no Brasil (a senhora de quem não sabes o nome é Bernardina Pinheiro) e uma em português de Portugal, com cerca de 20 anos, das edições Livros do Brasil.

Todas elas terão certamente tantos erros quanto a do Houaiss. É uma obra complexa, e do conhecimento que tenho esses erros acontecem também noutras traduções.

Qualquer pessoa meterá argoladas. Eu meto argoladas. Até tu, que és um especialista em inglês e português não sabes o que queria dizer \"colo\", nem \"bombeiro-hidráulico\". Todos cometemos erros, até os tipos mais-que-perfeitos.

Aliás, mesmo no original, existem diversas versões, que foram revistas e alteradas pelo próprio autor.

Etc.

(etc. quer dizer que há mais. Mas não vale a pena esmiuçar.)

Zé Trolha

  Bruno Fehr

quarta-feira, setembro 16, 2009 12:50:00 da manhã

Anónimo Zé Trolha:

"Olá, sabes o que é que quer dizer \"colo\"? E sabes o que quer dizer \"neck\"?"

Sim, sei!

"\"Pescoço\" ou \"colo\" têm o mesmo significado. Já terás ouvido falar nas palavras \"colar\" ou \"colarinho\" ou \"coleira\" (etc.), de origem \"colo\", do latim \"collum\", que quer dizer pescoço."

Colo é também uma parte do intestino grosso. Já ouviste falar em Cólon?
Quer dizer, agora pegamos num livro, um traduz e outro terá de fazer a desambiguação?
Ele deveria ter traduzido para pescoço.

"A tradução que ele fez foi para publicação no Brasil, e se manteve as especifidades lexicais do português que se fala do outro lado do oceano foi por opção da editora, como poderás constatar em nota introdutória ao romance."

O livro saiu em Portugal pela Editora Difel de Lisboa 17 anos depois de ter saído no Brasil, essa edição foi feita por Portugueses em Portugal e para Portugal e sim, precisava de ser revista antes de a editar cá.
Não sei que livro você tem, pois a obra de que falo (Difel, Lisboa) não contém nenhum prefácio, introdução ou nota explicativa, como sempre foi a vontade de James Joyce.

A que tem uma nota do Editor é que saiu no mesmo ano pela Circulo de leitores, que diz:

'Nesta edição do Ulisses de Joyce utilizou-se a tradução brasileira por ser considerada internacionalmente a mais perfeita e aquela que mais fielmente se aproxima do texto original do grande romancista irlandês. Na presente tradução apenas se procedeu à actualização ortográfica.'

"Actualmente existem quatro traduções para português. Três no Brasil (a senhora de quem não sabes o nome é Bernardina Pinheiro) e uma em português de Portugal, com cerca de 20 anos, das edições Livros do Brasil."

Não existem 4 traduções, existe:
- 1966 - Houaiss - Editora
- 1983 - Houaiss - Difel Lisboa
- 1983 - Houaiss - Ciruclo de Leitores
São a mesma tradução.

Depois temos:
- 1989 - João Palma Ferreira - Livros do Brasil
Após as traduções de Mário Henrique Leiria e Jorge de Sena nunca terem sido editadas.

Temos ainda a traducao da Bernardina da Silveira Pinheiro - Colecção Clássicos Modernos - ISBN: 8573026731

Se existe uma quarta tradução em Português terei todo o gosto em saber quem a fez.

"Qualquer pessoa meterá argoladas. Eu meto argoladas. Até tu, que és um especialista em inglês e português"

E voce um especialista em tentar corrigir blogues alheios, mesmo que tenha escrito "especifidades" em vez de "especificidades". Nunca disse ser um especialista, se bem que em Inglês o sou com toda a certeza. No entanto normalmente não ligo aos detalhes como o que acabo de apontar, mas visto que você gosta de ser "picuinhas" então vamos a isso.

Fico à espera do nome desse quarto tradutor, estou realmente interessado em saber.

  Bruno Fehr

quarta-feira, setembro 16, 2009 12:55:00 da manhã

ceptic:

"e acho que o erro acenta é na interpretação de cada um, que tentou traduzir."

Traduzir é uma responsabilidade, os bons tradutores estão em contacto com os autores quando ele é possível, mas quando não é devem perceber bem a obra antes de sequer tentar traduzir.

  São

quarta-feira, setembro 16, 2009 2:57:00 da manhã

Tenho o livro da editora Difel, tem 550 páginas assim que li no teu texto o nome do tradutor, fui ver de quem era a tradução, é desse senhor António Houaiss, tem uma nota do editor a dizer que tinham utilizado esta tradução por ser considerada internacionalmente a mais perfeita e aquela que mais fielmente se aproxima do texto original.
Na capa tem esta frase “Aliciante e fascinante; um desafio à inteligência, à sensibilidade, à criatividade de cada leitor” obrigada pelo aviso, mas já o li e posso dizer que só não desisti porque sou curiosa e queria saber porque é este livro considerado uma obra-prima, para além que é difícil eu desistir de um livro;
Muitas vezes as frases não faziam muito sentido, mas pensei que o problema era meu, que não tinha a inteligência, sensibilidade e criatividade para entender, nunca consultei tantas vezes o dicionário, e metade das vezes não encontrei a palavra, ficando sem saber se o dicionário não é dos melhores, ou se era simplesmente um erro ortográfico. Detesto traduções brasileiras, mas nunca pensei que a tradução fosse tão má.

Pensei voltar a lê-lo, quando há tempos descobri que existe um guia página a página mas primeiro tinha que encontrar esse guia e também outra tradução, já deu para ver que esta é mesmo muito má, apesar da nota do editor mas pelos comentários já vi que não há melhor e o meu inglês não me permite ler na língua original.

Em todas as profissões há bons e maus profissionais, a culpa é tanto dele como das editoras que só lhes interessa o lucro, não sei como isso se processa mas depois do livro traduzido, não há uma revisão literária, não há ninguém da editora que leia o livro antes e depois de ser editado, às vezes até uma leiga como eu, encontra incongruências e tantos erros ortográficos, que não podem ser só erros de impressão, eu nunca escrevo num livro, nem sublinho mas já me apeteceu sublinha-los a vermelho e enviar o livro para a editora.
Mas este livro serviu para passar a olhar para uma página a qual não ligava a mínima, que é no início onde está o nome do tradutor, se diz que a tradução é brasileira não compro, e também quando termino um livro que gostei de ler, ir ver quem o traduziu.

  Anónimo

quarta-feira, setembro 16, 2009 4:06:00 da manhã

Então tu num comentário anterior dizes que só existem duas traduções para português. Agora, neste comentário dizes que já são três. Em que é que ficamos?

Se queres saber qual é a quarta tradução, anota aí o nome. Há uma quarta tradução portuguesa, de facto, de um professor brasileiro, Caetano Galindo.

Diz-te alguma coisa? Pois, já calculava.

Não te fies só no que lês na net. Envia-lhe um mail e pede-lhe uma cópia. Assim, já poderás somar quatro traduções para português.

O livro que eu tenho é o mesmo tu dizes ter (o da Difel). A diferença é que no teu exemplar devem ter rasgado a página com a nota do editor ou com a excitação da leitura nem deste por ela.

Não sei se a edição do Círculo de Leitores tem ou não nota do editor, mas posso garantir-te que a edição que possuo da Difel traz essa nota do editor que dizes não trazer. Um mistério...

Se calhar vai dar-se o caso de teres uma edição da Difel mas de um livro do Rato Mickey, se calhar é isso. Esses não costumam trazer notas do editor, de facto.

Perdoa-me o gracejo.

http://www.scribd.com/doc/7039420/James-Joyce-Ulisses

(este por acaso até é da Difel, por acaso até é de 1983, e por acaso até tem a tal \"nota do editor\"... Por acaso)

Tens de conferir melhor o teu exemplar!

Zé Trolha

  Bruno Fehr

quarta-feira, setembro 16, 2009 4:47:00 da manhã

Anónimo Zé Trolha:

"Se queres saber qual é a quarta tradução, anota aí o nome. Há uma quarta tradução portuguesa, de facto, de um professor brasileiro, Caetano Galindo."

Obrigado pela resposta, já agora tem o ISBN? Obviamente que não o tem pois não existe nenhuma tradução editada por esse senhor.
Sim, ele dá palestras onde lê excertos traduzidos e possivelmente traduziu todo o livro, no entanto não foi uma tradução publicada e por algum motivo não foi. Possivelmente pelos mesmos motivos da não publicação das traduções de Jorge de Sena e Mário Henrique Leiria.

Se a tradução de Caetano Galindo conta, contará a dos outros dois senhores e quem sabe mais umas dezenas delas perdidas em trabalhos de doutoramento ou para fins pessoais.

"Não te fies só no que lês na net. Envia-lhe um mail e pede-lhe uma cópia."

Cópia de? Da tradução pois não existe livro. Acho que se colocar um anuncio oferecendo alvíssaras julgo que poderei somar mais uma dúzia.

"O livro que eu tenho é o mesmo tu dizes ter (o da Difel). A diferença é que no teu exemplar devem ter rasgado a página com a nota do editor ou com a excitação da leitura nem deste por ela."

Possivelmente na minha edição rasgaram diversas páginas pois tem 552 o que vai de acordo com o comentário da São, mas que entra em contradição com o link que forneceu referente à segunda edição. Mais do que possível, é óbvio que existem diferenças.

"mas posso garantir-te que a edição que possuo da Difel traz essa nota do editor que dizes não trazer. Um mistério..."

Da mesma forma que a minha não tem... realmente misterioso mas no entanto insignificante.

"Se calhar vai dar-se o caso de teres uma edição da Difel mas de um livro do Rato Mickey, se calhar é isso. Esses não costumam trazer notas do editor, de facto."

E no cu não vai nada?

"(este por acaso até é da Difel, por acaso até é de 1983, e por acaso até tem a tal \"nota do editor\"... Por acaso)"

Por acaso tem imensas páginas, por acaso e só por acaso com uma pequena busca num site livreiro pela última edição, reparo que actualmente tem 552 páginas... um mistério.

"Tens de conferir melhor o teu exemplar!"

Tem de usar essa cabeça.

  Poetic GIRL - BELA

quarta-feira, setembro 16, 2009 12:03:00 da tarde

Eu prefiro ler sempre os livros na versão original, esse nunca li, mas depois deste teu post fiquei curiosa. Recomendas? Tenho na prateleira em casa á espera o "war and peace" versão original, deve ser o próximo a pegar para ler... bjs

  ceptic

quarta-feira, setembro 16, 2009 2:14:00 da tarde

Blogger Bruno Fehr disse...

"O homem fazia dicionários de Português/Inglês do mais vendidos no Brasil."

E?????
dicionários não ensinam a interpretar.
Esclarecem apenas os possiveis significados, o resto do trabalho é de quem lê, neste caso quem traduziu

  Grafonola

quarta-feira, setembro 16, 2009 3:32:00 da tarde

É...é como quando, certa vez, no programa "eduardo maos de peúga", traduziram "I suck"(eu não tenho jeito para isto, eu não presto; dito por uma miúda que não se estava a sair muito bem num desafio) para "eu faço uns excelentes bóbós"...

è uma vergonha e um atentado tanto à inteligencia de quem tem um palmo de testa como à arte de quem cria.

  Bruno Fehr

quarta-feira, setembro 16, 2009 3:47:00 da tarde

Poetic GIRL - BELA:

"Recomendas?"

Eu acho que é um excelente livro, na sua história sobreviveu a censura, processos jurídicos. Em Portugal não era um livro bem visto pelo estado novo, por ser um "atentado à moral", recomendo a leitura na língua original.

"Tenho na prateleira em casa á espera o "war and peace" versão original"

Quem consegue chegar ao fim do War and Peace, consegue chegar ao fim de Ulysses.

  Bruno Fehr

quarta-feira, setembro 16, 2009 3:47:00 da tarde

ceptic:

"E?????
dicionários não ensinam a interpretar."

Um gajo que não sabe o significado de imensas palavras em Inglês, fazia dicionários?
Abrimos o dicionário e "beau" como "beau", não encontramos Teetotaler, entre dezenas de exemplos.
Criar dicionários de Português/Inglês é um tradução também do termo Inglês para o equivalente em Português e vice-versa.

  Bruno Fehr

quarta-feira, setembro 16, 2009 3:47:00 da tarde

Grafonola:

"traduziram "I suck"(eu não tenho jeito para isto, eu não presto; dito por uma miúda que não se estava a sair muito bem num desafio) para "eu faço uns excelentes bóbós"..."

Ahahahaha

"è uma vergonha e um atentado tanto à inteligencia de quem tem um palmo de testa como à arte de quem cria."

2 dedos, um palmo de testa é muito. Estás a misturar "um palmo de cara" com "2 dedos de testa". Um palmo de testa significa que não tens cabelo até ao topo da cabeça... ehehehehe... mas há quem diga "dois palmos de testa", ou seja, completamente carecas.

  Mistal

sexta-feira, setembro 18, 2009 4:06:00 da tarde

Realmente as traduções podem ser atrozes. Mas deixa estar que ler uma tradução de inglês-inglês para inglês-americano também pode ser hilariante

  Anónimo

domingo, março 25, 2012 12:19:00 da manhã

Eu passei aqui por acaso, mas digo-te uma coisa: se tens realmente a primeira edição do Ulysses guarda-a num cofre, e não o digas a muita gente. Isso vale centenas de milhares de euros.

  Bruno Fehr

domingo, março 25, 2012 4:32:00 da manhã

Anónimo:

"Eu passei aqui por acaso, mas digo-te uma coisa: se tens realmente a primeira edição do Ulysses guarda-a num cofre, e não o digas a muita gente. Isso vale centenas de milhares de euros."

Uma coisa é o valor que lhe dão e outro é o valor que os colecionadores estão dispostos a dar. Frequento um site especializado em busca de livros raros e encontrei uma primeira edição a ser vendida por 120.000 euros e há mais de ano que esta nesse site.
Dependendo do estado dela, são avaliadas entre 60 e 150 mil euros pelos alfarrabistas NA VENDA, pois se te mostras interessado em vender, oferecem-te 5.000 no máximo.

  Anónimo

domingo, março 25, 2012 1:39:00 da tarde

Bom, erro meu, então: há tempos li uma notícia em que se referia que um exemplar da primeira edição que tinha chegado num leilão aos 400 000 euros. Numa pesquisa rápida no AbeBooks encontrei exemplares entre 17 500 e 449 461 (!) USD.
De qualquer forma, os meus parabéns, tens aí um tesouro!

JC