Portugal na guerra de mentiras 3

 
(Chiquinho: O bode que se tornou a mascote das tropas portuguesas)

Continuando com os incidentes, um capitão português foi ferido por um engenho explosivo que os portugueses desconheciam, uma nova espécie de mina anti-pessoal designada por Mina Gorazde, desenvolvida pelas forças Bósnias-Muçulmanas. O mesmo aconteceu a um tenente com uma mina anti-pessoal PMA-3.

O incidente mais violento presenciado pelos portugueses foi a destruição de Gorazde, onde estava o quartel general português. Sem poder militar para manter a paz e largamente em desvantagem numérica e bélica, os portugueses limitaram-se a assistir ao ataque Bósnio à cidade habitada por Sérvios. Esse ataque era militar não contra o exercito Sérvio, mas sim contra a população civil Sérvia que durante a fuga incendiaram as suas casas. Na manha seguinte a cidade estava em ruínas.

Além das minas, a outra causa de acidentes foi a irresponsabilidade, como um soldado português que as realizar manobras de segurança com uma pistola Walter P-38 de 9mm, deu um tiro na sua própria mão tendo a bala ficado alojada numa perna. Acidente é sempre, mas as mortes por acidentes de viação, que foi a forma como mais soldados perderam a vida, eram evitáveis  na maioria dos casos. A questão é diferenciar os acidentes verdadeiramente acidentais dos acidentes com causas externas como o excessivo acesso a bebidas alcoólicas e a velocidade excessiva injustificada. Infelizmente não poderemos diferenciar os casos pois são assuntos abafados com versões oficiais mal documentadas.

 
(Escolta militar portuguesa a refugiados em território Sérvio)


Durante uma inspecção a um voo do governo Bósnio-Muçulmano, os soldados portugueses encontraram quatro canhões e 148 projecteis anti-tanque dissimulados na carga, um carregamento ilegal num voo civil. Estes voos passaram a ser proibidos devido a insistente agressividade com que os Bósnios desafiavam a forças de paz.

Além dos dois soldados que já referi, perderam também a vida:

- Primeiro-Cabo Pára-quedista José da Ressurreição Barradas
- Soldado Pára-quedista Ricardo Manuel Borges Souto
- Soldado Pára-quedista Ricardo Manuel Pombo Valério 

(2° BIAT português)

Mas os portugueses além de morrerem em acidentes, também mataram, como é o estranho e ainda por explicar caso da ambulância portuguesa que atropelou duas crianças Bósnias tendo uma delas morrido e a outra ficado gravemente ferida. O caso foi rapidamente rotulado como acidente e o condutor transferido... investigação? Deverá ter sido feita, mas ninguém no local sabia ou conseguia justificar o acontecido.

Os soldados portugueses tinham ordens para não deixar ninguém estacionar veículos ou aproximar-se dos quartéis. Tinham ordens para usar da força e em ultimo caso disparar sobre civis, sendo os Bósnios os que mais insistam em tentar estacionar veículos perto dos quartéis. Isto aconteceu após diversos incidentes com carros armadilhados usados por milícias pró-Bósnia e nesta altura era impossível diferenciar as milícias dos civis. 

A primeira vez que me aproximei de militares Sérvios, fiquei sem palavras a ver o poder militar ali estacionado, só num campo vi mais de 100 tanques e um acampamento 10 vezes maior que qualquer aquartelamento internacional. As tropas portuguesas e Italianas juntas não tinham tanques de guerra e no total tínhamos menos de 50 carros militares. Sarajevo poderia ser tomado a partir de qualquer ponto da fronteira em poucas horas, no entanto aquelas unidades estavam ali a defender as fronteiras deles e a população sérvia residente na área, sem tentarem qualquer avanço sobre a cidade.

 
(Jovem soldado (julgo que) da unidade mecanizada)

A razão de serem feitos cemitérios dentro da cidade em qualquer pedaço de terra, era por ser perigoso sair do centro da cidade, haviam relatos de snippers nas colinas. Gurkhas (uma espécie de mercenários que são a tropa mais respeitada a nível mundial) pertencentes ao exercito inglês  e  limparam essas colinas e nem um dos detidos tinha fardamento militar sérvio. No entanto após ler um relatório na altura após três missões Gurkha, tinha sido capturados 1 sérvio e 6 Bósnios e um deles tinha um chapéu que mais tarde vi em cerimónias Mevelevi de dança dervixe, prática realizada por muçulmanos dos Balcãs e Turquia.
 

(continua e será o último texto)

11 Comentários:

  Keep Walking

terça-feira, março 02, 2010 6:57:00 da tarde

Boas Bruno

Hoje nas noticias li exactamente aquilo que aqui escreves, O Karazic falou em Haia no tribunal a dizer que a única coisa que os Sérvios fizeram foi defender o seu povo e o seu País.
Ele também recusou o advogado nomeado pelo tribunal pois representar se a si próprio era a única forma de ilibar o seu povo e consequentemente a si próprio.

  Diogo

terça-feira, março 02, 2010 9:55:00 da tarde

Os sérvios foram sempre considerados, pelos Media ocidentais, os maus da fita. Afinal, os terroristas eram outros.

  lunatiK

sexta-feira, março 05, 2010 4:26:00 da tarde

Viva Bruno
é realmente incrível o que os media fazem para nos fazerem acreditar na história como a querem escrever e não como é realmente.
Incrível também são estas histórias que no fundo envergonham qualquer Português que se preze.
Cumps.

  L Saraiva

sábado, março 06, 2010 11:49:00 da tarde

Quando saí de Gorazde em Fevereiro de 1994, a cidade ainda pertencia aos Bósnios, como sempre tinha sido. No entanto as colinas à volta eram terreno sérvio. Por isso foi estabelecido pela ONU o corredor que ligava esta cidade a Sarajevo. Que se passou entretanto?

  Bruno Fehr

domingo, março 07, 2010 12:47:00 da manhã

Keep Walking:

"Hoje nas noticias li exactamente aquilo que aqui escreves, O Karazic falou em Haia no tribunal a dizer que a única coisa que os Sérvios fizeram foi defender o seu povo e o seu País.
Ele também recusou o advogado nomeado pelo tribunal pois representar se a si próprio era a única forma de ilibar o seu povo e consequentemente a si próprio."

O tribunal quer que ele aceite um advogado atribuído por Haia, desta forma ele será representado por ele e não estará presente na maioria das sessões. Ele como quer estar presente e quer questionar todas as testemunhas, deseja defender-se. Esta atitude do tribunal demonstra que não há interesse num julgamento justo, que o querem impedir de expor a sua versão.

  Bruno Fehr

domingo, março 07, 2010 12:47:00 da manhã

Diogo:

Não há inocentes nesta guerra, nem mesmo os civis, pois eles próprios eram geradores de conflito quando o seu vizinho era de outra etnia.

  Bruno Fehr

domingo, março 07, 2010 12:47:00 da manhã

lunatiK:

A história é escrita pelo vencedor, existe uma frase que neste momento não me lembro de quem é que diz: A História é composta por o que deve ser escrito tendo em conta o que querem que seja lido.

  Bruno Fehr

domingo, março 07, 2010 12:49:00 da manhã

L Saraiva:

"Quando saí de Gorazde em Fevereiro de 1994, a cidade ainda pertencia aos Bósnios, como sempre tinha sido. No entanto as colinas à volta eram terreno sérvio. Por isso foi estabelecido pela ONU o corredor que ligava esta cidade a Sarajevo. Que se passou entretanto?"

A cidade era de facto Bósnia pois os Bósnios somavam 30% da população mas era um enclave rodeado por zonas de maioria Sérvia, a certa altura os 7% de população sérvia começaram a ser expulsos da cidade por milícias Bósnias e isso causou um ataque das tropas Sérvias de dimensões tão grandes que as tropas da ONU foram obrigadas a retirar, abandonando os Bósnios ao seu destino. Nos finais de Março de 1994 não havia já soldados da ONU na cidade.

A História sobre esta cidade na Wikipédia ainda hoje é campo de batalha com sucessivas edições onde os administradores da wikipédia optam do repor sempre o texto pró-Bósnio, escondendo o motivo do ataque Sérvio.

A História diz-nos que a cidade suportou todos os ataques Sérvios e foi mantida livre, mas na verdade isso aconteceu por os Sérvios não tentarem tomar a cidade, ele atacaram a cidade e evacuaram a população Sérvia. Quando os soldados da ONU voltaram a entrar por forma a estabelecer o corredor de segurança, só havia Bósnios, Croatas e outras minorias na cidade.

  Daniela

sexta-feira, setembro 24, 2010 12:57:00 da manhã

Boa noite!
Caro senhor, fiquei chocada ao lêr o que escreveu sobre a presença dos militares portugueses na Bósnia. Das memórias mais remotas que tenho sobre esta guerra é das campanhas organizadas pelas tropas portuguesas para enviar para a popuação bósnias bens materiais.
Sobre os acidentes com veículos, lembro-me de ver na televisão umas entrevistas com os pais, familiares e amigos dos falecidos, e uma com o condutor. Na televisão também disseram que o acidente ocorreu devido a uma falha nos travões do blindado e que os militares morreram a caminho do hospital. Mais tarde ouvi outras duas versões: uma de que tinha chovido e que como o terreno era ingrene o veiculo tinha captado e a outra de que o condutor tinha pouca experiência em conduzir e que como ia destraido perdeu o controle e o veiculo captou. Acha que a sua teoria de que os acidentes ocorreram devido á embrieguês é a mais probavel de ser verdadeira entre as quatro Faz algum sentido)?

Atenciosamente
Daniela Borges

  Bruno Fehr

sexta-feira, setembro 24, 2010 1:36:00 da manhã

Daniela:

"Das memórias mais remotas que tenho sobre esta guerra é das campanhas organizadas pelas tropas portuguesas para enviar para a popuação bósnias bens materiais."

Bósnias e Sérvias. Se bem que na imprensa se falava do apoio dos militares a fazer chegar recursos à população Bósnia, na verdade os necessitados eram a população Sérvia em território Bósnio que eram constantemente atacados por milícias Bósnias. A imprensa portuguesa simplesmente passava a falsa propaganda que interessava à União Europeia.
Eu fiz parte de 3 corredores de ajuda alimentar e os 3 foram para chegar a populações de maioria Sérvia, isoladas em território Bósnio, uma dessas populações desapareceu do dia para a noite após um ataque Bósnio que em os Portugueses receberam ordens para abandonar a zona de conflito.

"Sobre os acidentes com veículos, lembro-me de ver na televisão umas entrevistas com os pais, familiares e amigos dos falecidos, e uma com o condutor. Na televisão também disseram que o acidente ocorreu devido a uma falha nos travões do blindado e que os militares morreram a caminho do hospital."

É verdade que alguns dos blindados eram do tempo do Ultramar, mas foram enviados para a Bósnia unicamente veículos operacionais ao serviço das unidades especiais do exército português. Isto significa que no meio de toda a sucata, aquela era a que estava em melhores condições.

"Mais tarde ouvi outras duas versões: uma de que tinha chovido e que como o terreno era ingrene o veiculo tinha captado"

É verdade que 2 veículos capotaram mas com o cardado dos pneus usados é improvável que se devesse à chuva. É mais fácil perder o controlo na neve do que na chuva.
E digo mais, um desses acidentes deu-se após o meu regresso a Portugal. Eu fiz lá o Inverno e saí na primavera.

"e a outra de que o condutor tinha pouca experiência em conduzir e que como ia destraido perdeu o controle e o veiculo captou."

Estamos a falar de tropas paraquedistas e não do exército regular, isto significa que são soldados com mais tempo de recruta e especialização do que todo o tempo de serviço militar do exército regular (na altura obrigatório). Falta de experiência em conduzir na chuva? Coloco isso de parte, pois chuva e terrenos íngremes é coisa que não falta nos treinos dos condutores em Portugal. Agora, se tivesse sido neve, aí sim, seria credível.

Contestarei sempre qualquer insinuação venha ela de elementos dos quadros superiores do exército ou do governo sobre a falta de experiência dos soldados portugueses. Nós sempre tivemos um deficit incrível a nível de equipamentos o que era compensado com o facto de termos a brigada paraquedista mais eficaz da Europa a nível de prontidão, rapidez de acção e coordenação, nos anos 90 e pelo menos até meados de 2000.

Em todos os treinos internacionais, só ficámos atrás das tropas Israelitas entre 1996 e 2001.

"Acha que a sua teoria de que os acidentes ocorreram devido á embrieguês é a mais probavel de ser verdadeira entre as quatro Faz algum sentido)?"

Não digo que o ou os condutores em causa estivessem embriagados, pois não o posso provar. Digo sim que o Ministério da Defesa nos enviava juntamente com os mantimentos três artigos dispensáveis num cenário daqueles: Tabaco, cerveja e vinho marcado como "Manutenção militar", vinho esse apelidado de "Mata Militar" pelos soldados.

Estar embriagado não era nada de incomum no meio das tropas portuguesas. Beber, juntamente com fumar era visto como passatempo.

É triste ter um governo que se preocupou mais em nos dar tabaco e álcool, do que nos dar roupa para enfrentar aquele inverno rigoroso onde muitos soldados pela primeira vez viram neve e sentiram temperaturas extremamente negativas.
Italianos e Americanos (os dois grupos mais próximos da minha unidade), tinham casacos de neve, nós tínhamos vinho e um casaco fabricado para a guerra em África e não numa zona gelada da Europa.

  Manca Mulas

sábado, maio 19, 2012 9:06:00 da tarde

O militar que referes ter dado um tiro ao fazer procedimentos de segurança é FALSO!
Esse militar estava em VITKOVICI a de serviço à porta de armas secundária encostada ao campo de futebol (Podia dizer os nomes completos mas por questões de privacidade não os vou divulgar)... Estava frio e o militar mais antigo diz para o mais novo que era a vez dele ir fazer a ronda... o mais novo não quis e o militar mais velho encostou a arma na própria mão e fez força, pois a P38 se se fizer força no cano a arma não dispara... no entanto não devia ter feito força suficente e premiu o gatilho... Conclusão: Tiro na mão e atingiu o outro na perna... ESTA É A VERDADEIRA HISTÓRIA!
Um reparo, o militar falecido Francisco José da Ressureição Barradas (da minha recruta) não era CABO... era SOL/PQ/RC... Uma máquina de guerra e uma máquina de bom humor! Descansa em paz Chico!