Ensaio sobre a meia-noite




É meia noite e os céus explodem tornando a noite em dia. É meia noite e a festa celebra o fim, o inicio da continuação. Uma celebração. Incompreensível alegria, causadora de alergia a quem tudo vê como mais um dia.
Os telemóveis tocam criando uma sinfonia ensurdecedora, repletos de desejos pouco sentidos. Desejos repetidos.

É meia noite e ela chora, quem sabe, o ano que passou. É meia noite e ela chora, quem sabe, a falta de esperança no futuro. É meia noite e ela chora sem saber porquê. Ela chora como se os seus sonhos tivessem morrido num segundo. Chora como se este principio fosse o fim do mundo. É meia noite e ela chora, quem sabe, tudo o que está para vir. Tudo aquilo que anseia poder sentir.

É meia noite e ele olha o vazio, vazio. Observando um belo mundo mas doentio. Uma brisa fresca com cheiro a norte, vinda da origem de tudo o que nele é forte. Diz-lhe que nada é vida e nada é morte, que não há azar nem sorte. Diz-lhe que nada é o principio do fim mas sim que todo o fim é um principio, e principio a principio caminhamos sem rumo pensado mas há muito definido.

É meia noite, ela sente e ele pensa. Ela vive mais um pouco e ele morre um pouco mais. Ela está pronta a recomeçar e ele pronto a acabar. Ela sorri aceitando finalmente o inicio, ele não reage aceitando o fim. Ele e ela não estão em sintonia, não pensam no mesmo, não vivem o mesmo momento mesmo estando juntos nesse momento. Ela mora no presente ilusório e ele no passado sempre presente.
Ao longe é tudo igual, lá dentro tudo é diferente.

É meia noite e as lágrimas dela já gelaram na sua face, simulando o coração dele. Ela olha-o na alma mas nesse olhar ele nada vê senão uma passagem para um outro mundo, uma outra cara, uma outra vida.
Ela numa lágrima abraçou o momento mas ele há muito que partiu.

7 Comentários:

  Kohinoor

sexta-feira, janeiro 01, 2010 2:09:00 da tarde

Ai está um belo conflito de partes!
Gostei de ler.

  Diogo

sexta-feira, janeiro 01, 2010 3:23:00 da tarde

Bom poema e Bom Ano 2010

  Jane Doe

sexta-feira, janeiro 01, 2010 4:31:00 da tarde

Quando se vive preso num passado o que acontece é isso mesmo. Morrer mais um pouco todos os dias.

:)

  IrisCairo

sexta-feira, janeiro 01, 2010 5:32:00 da tarde

Eis a vida com tudo o que lhe é inerente. Gostei.

  Eu

sexta-feira, janeiro 01, 2010 9:45:00 da tarde

Essa ela podia ser eu.. mas sem o ele!

  fantomette

domingo, janeiro 03, 2010 8:44:00 da manhã

eu senti um romance. muito bonito! gostei.

  Fada

terça-feira, janeiro 05, 2010 11:09:00 da tarde

:)

Triste e solitário, apesar de serem "dois".

Gostei.

Beijitos