Saí de Portugal em Setembro de 2004. Tinha recebido uma proposta de uma empresa Inglesa interessada em "roubar-me" aos chulos dos meus patrões Portugueses. O facto de eu aceitar, lógicamente teve a ver com as verbas oferecidas, mas mesmo assim não queria sair. Sabia que em Portugal, estava a trabalhar na área para a qual estudei e também em todas as outras que os meus chefes me colocavam. Em Portugal chama-se "polivalência", eu chamo-lhe "abuso". A oportunidade de partir causou-me conflitos sentimentais. Deixar a minha cidade, a minha casa, as minhas cadelas, as minhas mulheres, as minhas raízes.
Ora bem, foi ao pensar nisto que resolvi partir. Raízes? Foda-se, mas nós somos árvores? Que conversa é essa de raízes. Fiz as malas e pus-me no caralho (ermm, figurativamente, leia-se fui-me embora). Depois de Londres, veio uma nova proposta desta vez para Hamburgo, que no meu caso é "Top of the Game".
Não é fácil estar longe. Enquanto estava em Londres era fácil vir a Portugal, visitar toda a malta ao fim-de-semana. Podia vir de avião, ida e volta por 50 Euros. 50 Euros voam numa noite em Londres, pois 25 ficam logo à entrada das boas discotecas. Por isso era como estar a estudar fora. Vinha de Londres à sexta-feira por volta das 15h e voltava no domingo. Estive assim durante 15 meses.
Esta situação estava a criar um certo isolamento em Londres, visto que estando ligado à minha antiga vida, não iniciava uma nova. Fiz amigos, mas os de Portugal estavam primeiro.
Parei para pensar. Namoradas vão e vêm. Amigos vão e vêm. Os verdadeiros amigos ficam, continuam a ser nossos amigos mesmo passado anos, independentemente da distância. A família está ou deveria estar sempre lá. Por isso, aceitei vir para Hamburgo. Sabia que as viagens a Portugal iriam acabar, pois aqui além de custarem quatro vezes mais, a viagem também é três vezes mais longa.
Se queria atingir objectivos profissionais, ser reconhecido em Portugal pelo meu trabalho, esfregar na cara dos meus professores que atingi mais do que eles. Aos antigos patrões mostrar-lhes o quanto subestimaram os seus funcionários e as suas ideias. Tinha de me separar do passado. Começar de novo.
Começar de novo é lutar pelos nossos sonhos. Compensa sempre, mesmo que os sonhos não sejam atingidos, a luta em si, já é um troféu.
Senti saudades. Sinto saudades, não tanto da família e amigos, como seria de esperar. A família e amigos sabem onde estou, podem-me contactar e eu contactá-los. Sinto saudades do mar. Nasci e cresci ao pé do mar. Não passava um dia sem o ver. Era tão normal estar ali ao pé dele, sentir aquele cheiro a maresia no ar, que nunca lhe dei o devido valor. Após 20 meses sem ir a Portugal é esse cheiro que me faz falta.
Mas, 20 meses depois, aí vou eu. Finalmente férias. Não fui antes, com medo de ir a Portugal e não querer voltar. Hoje sei, que vou e quero voltar. A prova disso, tive-a quando comprei o bilhete de ida e volta, pois apesar de poder ficar 36 dias em Portugal, resolvi ficar só 10 dias. Quis usar o restante tempo das minhas férias com os meus amigos daqui, num tour pelo sul da Europa.
Senti-me bem ao já não sentir tanta falta de Portugal. Já não tenho raízes. Já não sou uma árvore!
Em Portugal vou para aqui:
A esta hora, amanhã vou estar a fazer isto:
Pois aqui, o tempo só da para isto:
E não são comparáveis, pois a queda no surf doi, mas doi menos!
10 dias chega, vou ver se a minha casa ainda está no mesmo sitio, pois está fechada e desabitada à 20 meses. Ver a família, a minha irmã que faz 7 aninhos e só se lembra de mim por fotos. Vou ver o meu irmão, que pelo que parece já sabe foder, ou pensa que sabe. Vou ver os poucos amigos que se mantiveram em contacto, o resto que se foda. E vou ver as minhas duas paixões, os meus amores, as minhas filhas, amigas, amantes, as minhas duas lindíssimas cadelas. A "Shiva" e a "Monalisa". Vou lhes dar um xi-coração enorme e um beijo naquelas bocas de diva e no final das férias elas voltam comigo!
A Monalisa. Dei-lhe o nome por ser estranha, não dá beijos a não ser a mim, tem olhos misteriosos e um sorriso enigmático!
A Shiva. Tal como a Deusa Hindu da criação que de maneira a criar destrói primeiro tudo. Esta menina destrói e cria. Caos, mas cria. Dar beijos não dá, ela cobre toda a gente que se aproxima de baba. Chega-se seco e sai-se a pingar baba de cão.
Vou, vou, vou, finalmente de Férias!
Claro que venho aqui. Tenho férias condicionadas, tendo de andar acompanhado de telemóvel e portátil para o caso de emergências. Por isso, a minha empresa não se irá importar de usar a internet paga por eles, para fazer uns posts aqui. Se, se importarem, eles que se fodam!
Os texto vão continuar só os comentários poderão demorar um pouco mais. Nesse caso a culpa não vai ser minha, vai ser delas:
Obviamente e tal como os nossos emigrantes das gerações anteriores, quando chegar a Portugal, tenho de me esquecer como se fala Português. Essa merda não vai ser fácil, pois eu quero é finalmente FALAR Português. Foda-se, é que é uma língua que só escrevo!!!
Boas férias para mim, com muitas meninas bronzeadas à minha volta e muitas louras nas esplanadas...