
Supostamente iria hoje abordar outro assunto, mas algo que se passou a noite passada me fez mudar de ideias.
Eu já abordei aqui o tema "Porque mentem os homens?", apesar de toda a carga humorística nesse texto, eu mantenho tudo o que lá está escrito, estou preparado para defender o que disse enfrentando qualquer mulher, que nem deverá tentar pôr o texto em causa, ou contra qualquer homem, que queira manter o segredo.
O homem mente, por tudo e por nada, isso é um facto. Mas, mentir não é um mal masculino, é um mal humano. O homem mente, tal como a mulher o faz. Talvez o homem seja mais descarado e se esteja a cagar se é apanhado ou não, enquanto a mulher é mais cautelosa. Ambos mentimos, sem motivos lógicos.
Porque mentimos?
Perguntava-me uma amiga, após ter mentido ao seu ex-namorado, sem ter de o fazer. Porque motivo temos de mentir a quem mais amamos e quem queremos ver longe? Porque motivo nos mentem também sem razões fortes?
Primeiro eu estabeleço uma diferença, entre mentir e omitir a verdade. Mentir é inventar histórias, construir uma nova realidade, omitir é esconder factos. Eu omito a verdade constantemente, não minto, simplesmente também não digo a verdade. Omitir a verdade é uma maneira de nos protegermos, pois achamos que a outra pessoa não tem de saber tanto como nós, sobre nós e não lhe queremos mentir. Omitir a verdade é uma defesa. Mentir criar uma nova realidade, que nos pode cair em cima um dia.
A mentira, faz parte da nossa vida. Quem diz que nunca mentiu, mente ao dizê-lo.
A mentira é vista como um mal necessário para evitar conflitos, seja no relacionamento familiar, de trabalho, de amizade ou mesmo de relacionamentos afectivos. O objectivo da pessoa, ao mentir, é evitar o sofrimento dos outros mas principalmente o nosso. É verdade, a mentira é egoísta. Quando mentimos a quem amamos e dizemos que é para não magoar essa pessoa, estamos a ser hipócritas, pois o nosso principal objectivo, mesmo que inconsciente é nos protegermos a nós próprios, para evitar brigas, discussões, confusões, para parecermos mais importantes, interessantes, misteriosos, ou para nos sentirmos parte de um grupo. Enfim, a mentira alimenta o nosso ego. Em outras situações, mentimos para exibir um status, a pessoa mente para se sentir igual ou até superior a seus colegas e às pessoas que nos rodeiam.
O nosso amigo que diz ter ido de férias para o Brasil, quando na verdade foi acampar para Peniche. Quando se fala da noite de Barcelona e alguém diz que já lá foi, sem nunca ter ido. Alguém que passa a vida a falar do seu/sua namorado/a que não existe, só para se sentir igual aos outros. Para se sentir "normal". Quem diz que tirou uma licenciatura numa faculdade privada atrás do sol posto, numa área completamente original, só para não se sentir inferiorizada, por simplesmente não ter tido os recursos financeiros.
A mentira, é reveladora da insegurança da pessoa em se assumir como ela é, revelando baixa auto estima.

Uma mentirinha, caridosa para não magoar ou uma mentira inocente para não sermos magoados é normal, é aceitável. Não há problema em mentir, dizendo que se esteve preso no trânsito, de maneira a evitar uma briga com a esposa ciumenta que não quer que ele vá beber uma cerveja com a malta do escritório.
A mentira faz estragos e magoa ainda mais do que se tivéssemos dito a verdade, quando descoberta. Além de mentirmos, traímos a confiança de alguém que não queríamos magoar. Não importa o tamanho da mentira e nem os motivos que levaram a pessoa a mentir, a pessoa mentirosa passa a ser vista com desconfiança e perde a credibilidade. E, muitas vezes, além de todas as dificuldades que ela tem na tentativa de recuperar a confiança perdida, esta pessoa pode perder para sempre o convívio com determinadas pessoas.
A mentira é fácil, é fácil sentir a tentação de mentir. Conhecer uma rapariga e dizer que se gosta da mesma música, quando não a suportamos. Dizer que ela está linda, quando parece um ovo da Páscoa cheio de cores.
Mentir é muitas vezes, sem querer, é inocente, mas é acima de tudo colocar uma armadilha onde nós próprios iremos cair.
Se contamos uma mentira uma vez, tudo bem, mas há quem as conte vez após vez após vez. Por vezes ouvimos alguém mentir a outra pessoas à nossa frente. Já me aconteceu, sinto-me mal ao estar a ouvir uma mentira pois estava lá, presenciei os factos, mas para a pessoa que conta a mentira, já a contou tanta vez, já acrescentou tantos factos novos e personagens, que acredita mesmo que foi assim que se passou. Essa pessoa já não faz por mal, construiu o seu próprio mundo de mentira e vive nele. O incrível é que essa pessoa é feliz, mesmo já não sabendo o que viveu realmente e o que inventou. Nem sabe essa pessoa, nem ninguém. Não a condeno, a mistura entre ficção e realidade resultou para essa pessoa, tem hoje 33 anos e tem sucesso, se é que lhe posso chamar isso. Mas... ontem ao perguntarem-me porque mentem as pessoas, não pude evitar de pensar nela. E quando descobrirem?
O facto é que o ser humano já na infância começa a mentir. Para fugir da repressão em relação aos pais. A diferença entre as pessoas é o quanto elas se acham convincentes. E aí começa a perda de limites. O mentiroso vive em função das suas inverdades. Sofre para evitar que a mentira seja descoberta, cria situações e outras histórias para sustentar as suas mentiras.
Uma mentira, pode durar uns minutos a ser descoberta, pode demorar anos, mas eventualmente será descoberta ou pelo menos posta em causa.
E quando essa mentira é praticamente uma vida inteira?
Eu sei que é impossível não mentir, toda a gente já mentiu e toda a gente irá mentir novamente, por mais insignificante que seja o facto. Mas cuidado, não deixem que a mentira se torne o vosso mudo. Mais vale dizer a verdade magoando do que fazer sorrir com uma mentira, pois assim que a mentira é descoberta, esse sorriso não será agradecido. Assumam quem são e como são, digam a verdade, se magoam terceiros, que se lixe, problema deles. Pelo menos, podem dormir descansados.
- Diz que me amas.
- queres que te minta?
- Não!
- ... ficamos por aqui então...